
Tenho andado dedicada ao estudo e ao Guilherme. Agora, temos tarefas diárias a cumprir. No início de Novembro, tivemos uma reunião com a coordenadora da sala dele e ficámos muito satisfeitos com o seu trabalho.
Chamou-nos a atenção para certos aspectos do Gui e sugeriu algumas soluções. Do modo como o fez, ficámos muito esclarecidos e confiantes. Ora, o Gui tem uma certa descoordenação motora, os seus movimentos não fluem e a sua musculatura não está trabalhada. Isso acontece ao nível do corpo e também ao nível da boca/ fala. O Guilherme sabe as palavras e percebe na maioria das vezes o que lhe dizem, mas tem dificuldade em se expressar. Ele fala atabalhoadamente, como se embrulhasse a falar, sobretudo falando rápido. Perante uma frustração, reage com agressividade, batendo e gritando. E perante o facto de não conseguir expressar-se vai diminuindo a sua alegria natural.
Razão para tal acontecer? O Guilherme não tem actividades que estimulem os seus músculos corporais e faciais. As actividades diárias em casa não requerem que ele fale e que ele se movimente, como ver TV, fazer puzzle, desenhar e pintar... Raramente caminha, quer numa ida ao supermercado, quer no bosque.
Sugestões? Fazer todos os dias um jogo com o Guilherme de modo a que ele tenha de interagir e falar, desenvolver também a língua. Caminhar com o Gui sobretudo no bosque para que ele possa trabalhar o seu corpo, nomeadamente em terreno acidentado e com tantas possibilidades de movimentos. Visitar um terapeuta de Logopedia ou de Ergoterapia.

Agora,
o que a coordenadora não sabia é que o Gui nasceu com o freio da língua curto e na altura disseram apenas que existia a hipótese de o cortar, mas que ele poderia mesmo viver assim que possivelmente o que teria como consequência era falar à
sopinha de massa. Outro aspecto que ela desconhecia, é que o Guilherme nasceu com um pequeno buraco um pouco acima do ânus. O pediatra na época desdramatizou a situação, pois ficámos receosos da Espinha Bífida. Por insistência, e desta vez através do médico de família, conseguimos uma consulta no Hospital D. Estefânia. A consulta teve alguns contratempos e já veio tarde. Contudo fizeram uma ecografia e alguns testes físicos, considerando que o Guilherme apenas tinha uma fissura sem contacto directo com o exterior e que em nada o afectaria. Caso houvesse alterações, qualquer médico habilitado poderia resolvê-las com uma pequena cirurgia.

Ora, agora
perante tanta informação, é ir à médica pediatra do Guilherme e a trabalhar com ele de modo a que tais dificuldades sejam ultrapassadas e ele possa progredir. Como a coordenadora indicou, é melhor que seja feito nesta fase do que mais tarde, estando ele já na escola.
Ainda falou de
mais aspectos, um deles foi o facto do Guilherme falar dele como uma terceira pessoa. Algo que é constante. Segundo ela, e concordo em grande parte, isso tem a ver com a ignorância de si, enquanto Ser com corpo, com forma. Ele não se sente, por isso fala de uma entidade que ele reconhece muito bem, mas não lhe pertence.
Chamou-nos a atenção para o excesso de comida. Brincando, disse que a lancheira do Guilherme era própria de um homem das obras. A pediatra aqui já nos tinha alertado para o peso do Gui. Mas bem devem saber que em Portugal, por exemplo as avozinhas, gostam muito que os meninos comam e comam bem. "Ele está mais magrinho, não está?!", perguntava uma das avós quando o viu pelo vídeo do Messenger.

Ora, sem exercício e a comer como estava, era por mais natural que ele estivesse no limite de peso para a idade dele e que não tivesse a musculatura trabalhada... Ah, e eu ainda relaciono o facto de ele ter episódios de dificuldades respiratórias, com a falta de exercício aeróbico, como caminhar, saltar... e o respirar ar saturado em excesso, pois se ele não tem muitas actividades exteriores, não respira ar puro, do exterior. E tudo aqui à frente dos nossos olhos, e parecia tão natural o curso das coisas. Espanto-me (positvamente) como o Ser Humano funciona.
Do modo como a coordenoradora falou, ficou tudo tão claro. Nada mudou no que fazíamos, mas tornou-se muito mais claro. O que mudou, foi o que agora fazemos, com mais consciência.